Colada ao banco fala distraidamente com uma desconhecida tentando esconder o pavor que vai dentro dela. Mas já chegou. E agora? Avança sem pensar, é tudo mais fácil quando pensa que não é ela quem está ali. É outra, já não é a mesma. Cai pesada sobre a cama e não pensa em nada. Não tem saudades, não tem sonhos, não tem medo. Porque já não é ela quem está ali. É outra.
Acorda todos os dias à mesma hora, não sabe porquê. Os dias parecem um amontoado de horas, de minutos, de segundos. Não! Na verdade parecem anos, anos de vazio do que já não é. Ou será vazio do que nunca foi? Não o sabe. Saboreia cada segundo com a certeza de que tudo é tão maior. Deixou para trás recordações, sorrisos, lágrimas, gestos, palavras, sabores, cheiros. Deixou-os para trás. Quem dera que os tivesse trazido, gravado cada palavra, fotografado cada sorriso, agarrado cada mão. Mas não pode. Ela é o aqui e o agora. O que foi já não é. Mas espera que ainda o venha a ser. “Tonta!” disseram alguns, “Pobre coitada”, lamentam outros. Mas ela não é. É outra.
Ainda ouve aquele som metálico e incessante. O mesmo som que a despertava todos os dias e a trazia de volta a ele. Ainda sorri quando o ouve. Ainda quer ouvi-lo outra vez. Ainda espera por janelas cor-de-laranja. Ainda espera por segundos de antecipação. Por passos contados, recepções ensaiadas. Ainda espera por sorrisos cúmplices, por mãos desajeitadas, por olhares fortuitos, por frases inacabadas.
Ainda espera por lugares distantes. Ainda se quer perder com ele em multidões. Descobrir o que já sabe e ouvir num silêncio a verdade, mesmo que no dia seguinte já não o seja. Porque já não é ela. É outra.
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